domingo, 16 de janeiro de 2011

Tharion e o Sol

Contam os Conselheiros de Heral, uma espécie de Senado nas Terras Baixas, que um dia o próprio Heral, deus da criação, estava caminhando entre os homens nos trajes de um pequeno e furtivo ladino. Andava pelas cidades desafiando guildas de ladinos com a seguinte frase: “Conheço um Rei muito rico que nunca foi roubado. Ele possui tesouros inimagináveis, como este”. E ele mostrava escondido em suas vestes um pergaminho com um selo de Poder.

Os pergaminhos selados com selos de Poder eram fabricados por Gravuristas Arcanos muito poderosos, da linhagem dos Arcanistas e aquele, em especial, parecia portar o Selo do Dragão Dourado, uma grande Escola de Arcanistas respeitada até os dias atuais. Provavelmente nas mãos de uma guilda poderia ser fonte de riquezas, pois vendida adequadamente a qualquer outra Escola daria um status de respeito à guilda e muito dinheiro para seus integrantes.

Muitas vezes algumas guildas tentavam roubar aquele artefato, mas o ladino sempre conseguia se esquivar e derrotar com sua espada curta todos aqueles que se atreviam, apenas batendo em suas cabeças com o corpo da espada e, portanto, não causando cortes nos adversários. Porém, nunca arredava o pé, parado no centro da confusão, dizia “Vou desconsiderar essa falta de respeito, pois acho que um ladino nunca rouba outro ladino. Mas tendes a minha palavra! Lá encontrareis muitos mais destes!”

Os ladinos então perguntavam quem era esse Rei tão poderoso que possuía artefatos tão nobres, pois a Escola dos Dragões Dourados estava extinta desde a última grande cisão dos Reinos. E Heral disfarçado dizia “Acima das Montanhas da Tempestade encontra-se o Reino”.

Nesse dia, foram escolhidos cinco entre os mais hábeis ladinos do Reino para essa investida. Mas o pequeno ladino alertou: “É uma terra hostil, onde poucas pessoas podem chegar e nenhuma ainda conseguiu voltar. Tendes cuidado e sobreviverão!”. Partiram em busca dos Reinos e seguiram ao Norte até o Rio da Desolação.

Mas Heral avisou aos viajantes. “Encontrareis seres fantásticos e misteriosos, além de diversos enigmas propostos por arcanistas de dez reinos, até chegar às Montanhas da Tempestade”.


(Continua...)

Protocolos a se seguir

Seu Reino e seu Destino dançarão sob a égide do Brasão”.

Rhandur, filho de Khandurin IX, protetor das Terras Baixas, príncipe da Casa de Narhrun ouviu essa frase tão desconexa de um velho mendigo, que transitava pela Praça do Mercado da cidade de Gnathûr. Aquele olhar caolho do ancião fitava aquele jovem alto de pele morena, tão bela, cuja face era desejada pelos grandes pintores do Reino das Terras Baixas. Sem compreender o fato e ignorando-o, Rhandur continuou sua caminhada junto à comitiva que o acompanhava a fim de se encontrar com os mercadores que levariam as especiarias aos Reinos do Norte.

Era um trabalho maçante que seu pai havia lhe outorgado, pois conferir junto ao contador-mor a grande caravana de trinta carruagens comandada por Uthar, um ex-tenente da Cavalaria, era uma atividade complicada e geralmente levava horas, as quais Rhandur consideravam perdidas. O príncipe gostava de passar o dia na Grande Arena observando duelos entre pseudo-dragões e apostando suas jóias naqueles guerreiros que admirava e visitar as fazendas do reino. A arena de combate entre guerreiros e pseudo-dragões remonta a história, quando 22 linhagens se uniram para derrotar a tirania da Linhagem do Dragão Dourado terminando com a obscura Era Gnathûr. Nesse duelo os guerreiros devem dominar e matar os pseudo-dragões da arena. Apesar de arriscada, a profissão de duelista nessa arena era rodeada de glória, fama e muita riqueza.

Chegando ao local onde a caravana se instalava e recebia as mercadorias, os empregados curvavam-se sob a presença do príncipe. Uthar avançou à frente de Rhandur e curvou-se.

- Que a luz do Sol brilhe e sempre lhe traga o ouro, meu senhor.

- Chega de mesuras por aqui. Estou exausto e quero terminar com isso logo – interrompeu Rhandur.

Uthar entregou um rolo de pergaminho ao príncipe.

- Eis aqui a relação de produtos a serem levados aos Reinos do Norte.

Rhandur desenrolou o pergaminho e leu atentamente a lista de produtos.

- Muitas especiarias interessantes... Durante um tempo Rhandur leu, até que comentou: Estranho...

- O que seria estranho, Majestade?

- Trinta e seis sacas de Lua-em-flor? Que utilidade teria para eles essa folha tão... comum em nossos campos?

- Não sei dizer, meu Senhor. Eles têm pedido essa folha com frequência. Oras, pagam muito bem por isso. Como nossos campos estão repletos e, para nós, ela é como uma praga que verdeja perenemente, até que é um negócio rentável para algo que simplesmente jogamos fora todos os anos.

- Eles não têm essa planta nos Reinos do Norte?

- Devido aos grandes períodos em que Tharion fica em frente ao Sol, nenhuma planta que necessite de grandes quantidades de luz sobrevive naquelas terras frias. Lua-em-flor é uma planta de hábitos que necessitam de muita insolação.

Lua-em-flor é uma planta perene que cresce em todos os vastos campos dos Reinos do Sul. Floresce o ano todo em inflorescências umbeliformes. As pequenas inflorescências são brancas, dotadas de um perfume agradável e muito utilizada para forragem nos estábulos de pseudo-dragões e cavalos-dourados.

Tharion é um grande corpo celeste vermelho que ocupa quase 90% dos céus e que nasce no sul e se põe no norte no Mundo. Nas Terras Baixas e outros Reinos do Sul, Tharion sempre está no céu à noite e o Sol sempre é visto durante dez das vinte e seis horas do dia. Nos Reinos do Norte, a luz só aparece por quatro horas, sendo que Tharion oculta o Sol por oito horas cruzando o céu de ponta a ponta e, quando se põe, volta a mostrar o Sol por mais duas horas, já no poente, anoitecendo finalmente. Essa diferença faz com que o céu nos Reinos do Norte mostre as estrelas, o que não se vê no restante do Mundo. É uma terra escura, o que lhe vale a alcunha por alguns povos de Terra Escura ou Reinos de Tharion.

Lua-em-flor tem movimentado grandes quantidades de riquezas nos reinos meridionais. Os Reinos do Norte fornecem metais e pedras preciosas que são muito abundantes naquelas terras. Fumos, temperos, perfumes e essências de qualidade superior provêm dos Reinos do Norte. Geralmente caravanas que vêm do Norte são muito visadas e seus transportadores são pessoas muito respeitadas.

A Praça do Mercado estava repleta de pessoas e caravanas que partiriam em filas a fim de se protegerem até um determinado pedaço do caminho, próximo ao Deserto da Desolação quando finalmente cada uma tomaria o seu rumo. Ladinos habitam essas áreas e todo cuidado é pouco. Muito barulho, tendas e carroças se espalhavam de uma forma que o mais desatento afirmaria que uma grande desordem imperava naquela Praça. Porém, os grupos tomavam posições estratégicas para impedir o furto e protegerem-se uns aos outros.

No centro da Praça havia um corifeu e uma encenação de “Laufelin e Leufenir” na visão da Guilda dos Bardos. Não era uma apresentação bem aceita entre os Nobres, pois acusava a impureza entre os grandes Reis. Isso era desconfortável para a maioria das pessoas. Mas em um Reino como as Terras Baixas, onde havia um princípio de democracia e de respeito à liberdade de expressão, era apenas a demonstração dessa ideia, e a população apoiava de certa forma, tentando demonstrar que as Terras Baixas eram um lugar livre da tirania, como diz a Tradição na qual foi formada.

A peça era toda encenada em torno do grande romance da princesa dos Dragões Dourados Laufelin e do Deus Guardião do Reino dos Mortos Leufenir. Quando os Dragões Dourados caíram sob a desgraça de seu próprio egoísmo, a morte de Laufelin sempre foi cercada de mistérios. Cada bardo canta de seu modo essa história, mas todos concordam que era a mais bela entre as princesas dos Brasões. Seus cabelos castanhos claros lisos e seus olhos grandes e amendoados pareciam hipnotizar aqueles que a olhavam. Diziam os mais cautelosos que ela era uma feiticeira que encantava aos seus súditos e a todos os nobres que frequentavam as festas do reino dos Dragões Dourados. Porém, a história dessa linda moça se confunde com a grande compulsão de Leufenir, deus guardião do Reino os Mortos, de conseguir uma esposa a fim de lhe dar um herdeiro. Acredita-se que Leufenir habita além do Mar da Pedra-que-Canta, em uma ilha verdejante rodeada por um arco-íris eterno.

A Pedra-que-Canta é um costão rochoso que, por sua formação, permite que a brisa do mar, ao passar por suas reentrâncias, libere uma melodia melancólica e temida pelos viajantes, que acreditam que as Cavaleiras de Leufenir ali estão a tentar seduzir os marinheiros e viajantes que por ali passam. Costumeiramente, os viajantes da região fazem um ritual de desferir uma flecha à Pedra a fim de acalmar as Cavaleiras e adverti-las que não são bem vindas.

Os bardos mais antigos encenam canções que citam a Guerra contra os Dragões como um plano de Leufenir para conseguir levar Laufelin para o Reino dos Mortos e fazê-la Rainha da Morte, senhora dos destinos. Leufenir conseguiu convencer os Reinos circunvizinhos que os Dragões Dourados tinham um plano de dominação do Mundo, o que parecia coerente, pois realmente os Dragões conseguiam inserir seu brasão em muitas cidades, tornando-se altamente influente no Conselho dos Nobres.

Os Dragões sempre eram ouvidos e atendidos pelo Conselho, mesmo que algumas ideias pareciam estranhas para a estabilidade do Conselho e a manutenção da nobreza no mundo. Eles defendiam maiores poderes para a burguesia e para os campesinos e maiores restrições aos Arcanistas, pois temiam que estes um dia pudessem ter poder demais e, assim, desestabilizar o Equilíbrio entre a Nobreza e o Clero. Não foi difícil estabelecer um plano para a derrubada do poder dos Dragões Dourados e assim se iniciou a Guerra contra os Dragões em 2645 culminando com a queda de Lantur I, também conhecido como o Golpe da Discórdia. A canção mais tradicional a seguir é citada:

Laufelin, a linda dragonesa,

De Lantur, filha tão amada,

Por Leufenir, tão desejada,

Na Discórdia tão indefesa.

Registra-se nos livros antigos da Guilda de Bardos que Lantur I, rei dos Dragões Dourados, foi rendido e Durendou IV, rei dos Escorpiões, a pedido de Leufenir desejava raptar Laufelin e levá-la à Pedra-que-Canta a fim de entregá-la ao deus. Porém, ao tentar impedir, Lantur I foi morto em luta. Durendou IV pediu aos seus guardas que a levassem para um quarto isolado, amarrada. Sozinho com ela, Durendou se encantou com tamanha beleza e a violentou de forma tão selvagem que ela sangrou até morrer. Tomado pelo medo, Durendou IV a colocou em um caixão e pediu que levassem o corpo e o jogassem no mar.

O pedido foi atendido. Mas Sarantir, deus das águas, que recebe a todos os corpos dos marinheiros e os leva para o descanso eterno foi informado de que aquele corpo era Laufelin, objeto de desejo de Leufenir. Ordenou, então, que os golfinhos a conduzissem à Pedra-que-Canta.

Laufelin flutuou até uma gruta e foi encontrada por uma Cavaleira da Morte, que logo a reconheceu e levou o cadáver até a presença de Leufenir. Este recuperou o espírito da princesa que ainda vagava pelos campos e o recolocou naquele corpo inerte. A moça recobrou os sentidos e o Deus Guardião se aproximou da moça, que apenas chorava por se lembrar das últimas lembranças antes de morrer. Ele se identificou e sorriu, sentado ao lado dela no leito em que estava deitada. Leufenir pediu que ela descansasse e ordenou às Cavaleiras que a tratassem com respeito e trouxessem alimentos e bebidas adequadas e de qualidade para que ela pudesse se sentir bem. Porém, Laufelin apenas pedia pelo pai e, ao dirigir-se para Leufenir, implorou que pudesse falar com seu progenitor. Ele o atendeu e um espírito apareceu frente à princesa.

Lantur I e Laufelin conversaram a sós, pois o Deus, em respeito à moça, deixou-os sozinhos. Um conto bardo estudado em algumas escolas expressa um pouco esse diálogo.

“Laufelin, princesa reencarnada, ao olhar seu pai, o grande Rei Lantur I, descendente de Gnathûr e Rei mais próspero dos Dragões Dourados, parecia irradiar o ouro de suas Tradições, mesmo que este outro parecia triste e melancólico.

E disse o sábio Rei: “Minha princesa! Minha filha tão querida! Não tenhas neste pranto a tristeza que ele carrega! Ou deixes esvair toda a tristeza nessas tão puras lágrimas que como as fontes límpidas que constroem o Rio das Brumas purifiquem tua alma! Agora o sofrimento se foi! Sejas forte como o sangue que carregas nesse corpo tão abençoado e como as decisões dos nossos antepassados sempre comandaram!”

E Laufelin, com a doce voz que parecia uma flauta suave argumentou: “Meu pai! Não me peças para compreender que o belo, agora se foi! Minha sustentação corroeu-se pelas falsas palavras daqueles que Gnathûr um dia confiou! Meu coração palpita de dor não pelos bens materiais que perdemos, mas porque perdi toda esperança e toda honra, que agora me acompanha neste corpo agora sujo pelos atos de Durendou! Meu corpo está envenenado e minha alma destinada a conviver com esta lembrança tão impiedosamente eterna! Como sou infeliz!””

A ira de Leufenir pelos atos de Durendou IV parecia reservar somente a vingança. O ato de traição desferido pelo Rei dos Escorpiões parecia atingir o Deus Guardião. Comparou Durendou IV a um aracnídeo que covardemente desfere seu télson contra uma borboleta indefesa. Tomado de ira, reuniu algumas Cavaleiras da Morte e ordenou que o poder dos Escorpiões deveria retornar às estrelas.

Rhandur assistia a encenação enquanto seus assessores faziam a contabilidade da caravana. Uthar aparece e pede a atenção do príncipe... (continua)

sábado, 15 de janeiro de 2011

O Livro da Criação ou “A Carta de Heralis”

Conta o Livro da Criação, aquele que o Mundo venera:

A Heralis se atribui a criação da vida. O céu era belo, mas algo faltava para que tudo ficasse esplêndido. As estrelas foram criadas e estas dançavam no céu. Porém Heralis pensou que aquela dança necessitava de ordenação e criou uma coreografia. As estrelas repetiam tanto essas danças, que traços se desenhavam no céu e a pureza produzia vida no mundo. A essa imagens, Heralis chamou de constelações. Cada figura fazia surgir algo no mundo. Alguns deles tinham movimentos e necessitavam de matéria. Eram os animais, que se representavam de diversas formas. Entretanto, ao amanhecer, esses animais morriam e desapareciam, pois as estrelas se ocultavam e a dança não era mais visível. Uma nova dança foi criada e se criaram as plantas, que acumulavam a energia das estrelas e a reservavam para os animais sobreviverem enquanto a noite não chegava, alimentando-se delas. Certos movimentos da suntuosa dança não se representavam no mundo, mas na mente desses seres.

Para cada animal e planta, Heralis deu-lhe um poder específico, para que ele guardasse neles um pouco de si. Cada coisa no mundo existe representada nos céus. Heralis queria suas criações especiais e belas. Nessa época, todos os animais se comunicavam e eram muito felizes. Entre esses espécimes, havia o Homem e, em um determinado dia, o Homem de nome Gnathûr, rei dos Homens, clamou por Heralis e este lhe apareceu. Heralis notou que Gnathûr estava pensativo e lhe perguntou:

“O que te afliges, Gnathûr, rei dos Homens? Tu tens reconhecidamente a representação desta querida criação e a mente te perturba por que motivo?”

E Gnathûr, que era soberano entre os homens, prostrou-se diante da magnificência de Heralis e lhe respondeu:

“Senhor da Criação, tuas obras são mais do que belas, mas esplêndidas. Posso dizer que há nada melhor do que tudo que animais e plantas possam colher de tua magnífica sabedoria. Cada espécie colhe o que lhe é devido. A vaca colhe a paciência e nos ensina a lidar com o tempo. O elefante mostra que a força supera a fraqueza, mas o rato demonstra que a fraqueza com a inteligência é poderosa contra a força. Enquanto o guepardo mostra que a agilidade encurta a viagem, o caramujo mostra que numa curta viagem a agilidade não importa. Cada um com seu atributo adequado.”

E caminham um pouco sobre um campo aberto. Gnathûr continua:

“E os homens têm seu papel nessa vida sendo o que? Temos atributos da maioria dos animais e plantas, mas poder supremo sobre nada. A que nós viemos?”

Heralis suspira e responde:

“Dei-lhe inteligência para entender ao mundo no qual vive. A sabedoria para bem utilizar o que entendestes. A força para se manter firmes contra o mal. A beleza para que sejam os mais belos dentre os animais. A destreza para que possam manusear e produzir seus instrumentos delicados. O amor para que possam gostar de tudo que lhes envolve. O que mais quereis? De que poder falas?”

E diz Gnathûr:

“Senhor da Criação. O elefante tem a força que somente cem varões possuem com árduo esforço. O carvalho possui a longevidade e a resistência que nem os mais anciãos conseguem contar adequadamente. O caramujo, apesar de não longevo, vê tudo a sua volta ao mesmo tempo, enquanto a humanidade se fixa a um ponto restrito. O morcego ignora a luz do dia com habilidades noturnas e nós na escuridão não vemos um palmo à frente de nossos narizes. E os nossos narizes são tão ineficientes se comparados ao galgo. E quilômetros são nada à visão do falcão enquanto precisamos de lentes”.

Exalta-se Heralis:

“E não pode com suas mãos hábeis produzir a lente para ver como o falcão? Não tens sabedoria para construir barcos para navegar os mares como fazem as tartarugas? Não tens a vontade de viver para apreciar a vida curta, mas intensa que vos fostes dada? A lamparina não vos dá luz na escuridão? E não conseguis doutrinar os animais e as plantas para seus propósitos? O mundo aos vossos pés podeis ter! O que quereis mais?”

Gnathûr fita Heralis e exclama:

“Não basta tê-los, mas sê-los nos tornariam melhores, perfeitos na tua criação, querido Heralis”.

“Não há perfeição maior. Eu amo o Homem como a todos os seres sob este mundo. Tu pensas que o Homem é incompleto, mas dentre os demais da Criação, é o que os possui todos dentro de si. Pensa e reflete sobre o que me disse, pois a resposta está nas tuas próprias palavras com um pouco da minha contribuição.” E Heralis se desfaz na areia.

Gnathûr não quis refletir sobre as palavras de Heralis e se tornou ganancioso. Entendeu que o Homem já possuía todos esses atributos, porém sua mente imaginou que, se quer o Homem soberano, raciocinou que a única forma de isso acontecer era enfraquecer as demais espécies. Instituiu o manejo de todas as espécies para que todas servissem ao Homem. As plantas começaram a serem cultivadas para alimentá-los ou para satisfazer prazeres encerrando-as em potes. Os animais aos poucos eram confinados, abatidos e aqueles que pareciam não servir diretamente para o Homem eram exterminados. O reino de Gnathûr cresceu e iniciou a construção de cidades que tomavam o lugar de florestas e refúgios de animais. Descobriu que o poder de cada animal e planta poderia ser incorporado pelo Homem através de rituais específicos.

Ao novamente acordar, Heralis viu que o Homem havia sucumbido às palavras equivocadas de Gnathûr e pensou que muito poder foi entregue a ele. Ordenou aos seus servos que uma batalha se travasse para o extermínio dos Homens. Por mil e quatrocentos anos guerras se sucederam com perdas irreparáveis para os dois lados. Para impedir um colapso do mundo, Heralis clamou a Gnathûr por um diálogo prontamente aceito. Heralis olhava para o rei e recitava:

“Queres o poder para que possas lidar melhor com o mundo que vive? De todas as coisas que existem e ainda são desenhadas pelas estrelas. Exterminas as criações e entristeces a dança. Sem a dança, o poder que tanto almejas não pode se concretizar. Dar-te-ei o poder se findares a guerra.”

Gnathûr ordenou o fim da guerra e sorriu. E desceram dos céus os espíritos das constelações e se instalaram no mundo tomando corpo, cada um como casal humano. Gnathûr observou todas aquelas pessoas e viu que cada uma emanava algum Poder. Heralis, então, falou:

“A cada um deles o grande poder de cada ser vivo está representado e a você Gnathûr, darei o poder de permitir que se expressem. Seu conhecimento de forja e das artes poderá fazer o Poder permanecer sobre a terra, que sempre será fértil se a harmonia imperar. E Gnathûr deu poder a seus súditos e os chamou de Arcanistas. A eles havia o poder para forjar em brasões sagrados figuras que transmitiam o poder das constelações.

Para o equilíbrio do mundo, Gnathûr elegeu súditas que se clamaram Clérigas. A elas o culto e a lembrança desses dias foram atribuídos e o poder de anular brasões foi outorgado. O que um Arcanista cria, um Clériga desfaz. Como o ciclo de vida e morte, o uso do poder foi destinado a setenta e nove clãs, que deveriam proteger o mundo e dominá-lo com parcimônia e sabedoria.

Cada clériga se uniu a seu par arcanista e se instalaram em setenta e nove regiões escolhidas e suas histórias foram descritas no “Livro das Linhagens”, ou “A Carta de Gnathûr”.