sábado, 15 de janeiro de 2011

O Livro da Criação ou “A Carta de Heralis”

Conta o Livro da Criação, aquele que o Mundo venera:

A Heralis se atribui a criação da vida. O céu era belo, mas algo faltava para que tudo ficasse esplêndido. As estrelas foram criadas e estas dançavam no céu. Porém Heralis pensou que aquela dança necessitava de ordenação e criou uma coreografia. As estrelas repetiam tanto essas danças, que traços se desenhavam no céu e a pureza produzia vida no mundo. A essa imagens, Heralis chamou de constelações. Cada figura fazia surgir algo no mundo. Alguns deles tinham movimentos e necessitavam de matéria. Eram os animais, que se representavam de diversas formas. Entretanto, ao amanhecer, esses animais morriam e desapareciam, pois as estrelas se ocultavam e a dança não era mais visível. Uma nova dança foi criada e se criaram as plantas, que acumulavam a energia das estrelas e a reservavam para os animais sobreviverem enquanto a noite não chegava, alimentando-se delas. Certos movimentos da suntuosa dança não se representavam no mundo, mas na mente desses seres.

Para cada animal e planta, Heralis deu-lhe um poder específico, para que ele guardasse neles um pouco de si. Cada coisa no mundo existe representada nos céus. Heralis queria suas criações especiais e belas. Nessa época, todos os animais se comunicavam e eram muito felizes. Entre esses espécimes, havia o Homem e, em um determinado dia, o Homem de nome Gnathûr, rei dos Homens, clamou por Heralis e este lhe apareceu. Heralis notou que Gnathûr estava pensativo e lhe perguntou:

“O que te afliges, Gnathûr, rei dos Homens? Tu tens reconhecidamente a representação desta querida criação e a mente te perturba por que motivo?”

E Gnathûr, que era soberano entre os homens, prostrou-se diante da magnificência de Heralis e lhe respondeu:

“Senhor da Criação, tuas obras são mais do que belas, mas esplêndidas. Posso dizer que há nada melhor do que tudo que animais e plantas possam colher de tua magnífica sabedoria. Cada espécie colhe o que lhe é devido. A vaca colhe a paciência e nos ensina a lidar com o tempo. O elefante mostra que a força supera a fraqueza, mas o rato demonstra que a fraqueza com a inteligência é poderosa contra a força. Enquanto o guepardo mostra que a agilidade encurta a viagem, o caramujo mostra que numa curta viagem a agilidade não importa. Cada um com seu atributo adequado.”

E caminham um pouco sobre um campo aberto. Gnathûr continua:

“E os homens têm seu papel nessa vida sendo o que? Temos atributos da maioria dos animais e plantas, mas poder supremo sobre nada. A que nós viemos?”

Heralis suspira e responde:

“Dei-lhe inteligência para entender ao mundo no qual vive. A sabedoria para bem utilizar o que entendestes. A força para se manter firmes contra o mal. A beleza para que sejam os mais belos dentre os animais. A destreza para que possam manusear e produzir seus instrumentos delicados. O amor para que possam gostar de tudo que lhes envolve. O que mais quereis? De que poder falas?”

E diz Gnathûr:

“Senhor da Criação. O elefante tem a força que somente cem varões possuem com árduo esforço. O carvalho possui a longevidade e a resistência que nem os mais anciãos conseguem contar adequadamente. O caramujo, apesar de não longevo, vê tudo a sua volta ao mesmo tempo, enquanto a humanidade se fixa a um ponto restrito. O morcego ignora a luz do dia com habilidades noturnas e nós na escuridão não vemos um palmo à frente de nossos narizes. E os nossos narizes são tão ineficientes se comparados ao galgo. E quilômetros são nada à visão do falcão enquanto precisamos de lentes”.

Exalta-se Heralis:

“E não pode com suas mãos hábeis produzir a lente para ver como o falcão? Não tens sabedoria para construir barcos para navegar os mares como fazem as tartarugas? Não tens a vontade de viver para apreciar a vida curta, mas intensa que vos fostes dada? A lamparina não vos dá luz na escuridão? E não conseguis doutrinar os animais e as plantas para seus propósitos? O mundo aos vossos pés podeis ter! O que quereis mais?”

Gnathûr fita Heralis e exclama:

“Não basta tê-los, mas sê-los nos tornariam melhores, perfeitos na tua criação, querido Heralis”.

“Não há perfeição maior. Eu amo o Homem como a todos os seres sob este mundo. Tu pensas que o Homem é incompleto, mas dentre os demais da Criação, é o que os possui todos dentro de si. Pensa e reflete sobre o que me disse, pois a resposta está nas tuas próprias palavras com um pouco da minha contribuição.” E Heralis se desfaz na areia.

Gnathûr não quis refletir sobre as palavras de Heralis e se tornou ganancioso. Entendeu que o Homem já possuía todos esses atributos, porém sua mente imaginou que, se quer o Homem soberano, raciocinou que a única forma de isso acontecer era enfraquecer as demais espécies. Instituiu o manejo de todas as espécies para que todas servissem ao Homem. As plantas começaram a serem cultivadas para alimentá-los ou para satisfazer prazeres encerrando-as em potes. Os animais aos poucos eram confinados, abatidos e aqueles que pareciam não servir diretamente para o Homem eram exterminados. O reino de Gnathûr cresceu e iniciou a construção de cidades que tomavam o lugar de florestas e refúgios de animais. Descobriu que o poder de cada animal e planta poderia ser incorporado pelo Homem através de rituais específicos.

Ao novamente acordar, Heralis viu que o Homem havia sucumbido às palavras equivocadas de Gnathûr e pensou que muito poder foi entregue a ele. Ordenou aos seus servos que uma batalha se travasse para o extermínio dos Homens. Por mil e quatrocentos anos guerras se sucederam com perdas irreparáveis para os dois lados. Para impedir um colapso do mundo, Heralis clamou a Gnathûr por um diálogo prontamente aceito. Heralis olhava para o rei e recitava:

“Queres o poder para que possas lidar melhor com o mundo que vive? De todas as coisas que existem e ainda são desenhadas pelas estrelas. Exterminas as criações e entristeces a dança. Sem a dança, o poder que tanto almejas não pode se concretizar. Dar-te-ei o poder se findares a guerra.”

Gnathûr ordenou o fim da guerra e sorriu. E desceram dos céus os espíritos das constelações e se instalaram no mundo tomando corpo, cada um como casal humano. Gnathûr observou todas aquelas pessoas e viu que cada uma emanava algum Poder. Heralis, então, falou:

“A cada um deles o grande poder de cada ser vivo está representado e a você Gnathûr, darei o poder de permitir que se expressem. Seu conhecimento de forja e das artes poderá fazer o Poder permanecer sobre a terra, que sempre será fértil se a harmonia imperar. E Gnathûr deu poder a seus súditos e os chamou de Arcanistas. A eles havia o poder para forjar em brasões sagrados figuras que transmitiam o poder das constelações.

Para o equilíbrio do mundo, Gnathûr elegeu súditas que se clamaram Clérigas. A elas o culto e a lembrança desses dias foram atribuídos e o poder de anular brasões foi outorgado. O que um Arcanista cria, um Clériga desfaz. Como o ciclo de vida e morte, o uso do poder foi destinado a setenta e nove clãs, que deveriam proteger o mundo e dominá-lo com parcimônia e sabedoria.

Cada clériga se uniu a seu par arcanista e se instalaram em setenta e nove regiões escolhidas e suas histórias foram descritas no “Livro das Linhagens”, ou “A Carta de Gnathûr”.

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